terça-feira, 16 de abril de 2013

A pílula da polêmica





Em uma matéria publicada no dia 4 de março de 2013 no jornal Zero Hora, o uso do medicamento para o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) na infância e adolescência foi abordado. Trata-se de uma droga denominada metilfenidato. A sua principal ação é combater os sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade manifestados por este tipo de crianças. O uso da Ritalina ou Concerta (nomes comerciais no Brasil para o metilfenidato) é um tema que atualmente vem preocupando a pais, professores e profissionais da saúde mental.
 
Segundo a reportagem, os diagnósticos errados ajudam a fazer de Porto Alegre a capital brasileira líder em consumo de medicamentos para o Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Para Luís Augusto Rhode, responsável pelo Programa de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade do Hospital de Clínicas, concorda que, em muitos casos, a prescrição é feita indevidamente em consultas rápidas.

O primeiro ponto a destacar é que nem toda criança agitada e distraída tem TDAH. É preciso saber muito bem diferenciar o nível de atenção e atividade normal de acordo com a idade das crianças do que não é esperado na mesma faixa etária com relação a estas características. Si as crianças em questão são muito pequenas, a dificuldade de diferenciar o normal do patológico é ainda maior, devido a que crianças pequenas são naturalmente agitadas e desatentas.

A psicóloga Alice Peres Duarte afirmou nesta reportagem que boa parte das crianças que atende não precisaria estar sendo medicadas. Segundo ela, precisavam que os pais estivessem mais presentes.
Outra questão é que dificuldades visuais e auditivas também podem contribuir com algum grau de desatenção. Prova disso é que em um estudo realizado em campinas, verificou-se que das 365 crianças que começaram a usar óculos de grau 36,2% ficaram menos agitadas, 57% ganharam concentração e 51% passaram a finalizar tarefas que antes não finalizavam. Isto significa que um simples par de óculos pode eliminar alguns dos principais sintomas que caracterizam o TDAH.

Os resultados da investigação e as dificuldades de diferenciar os comportamentos normais das condutas consideradas inadequadas apontam para a necessidade de que os psicólogos e profissionais implicados realizem um diagnóstico com maior critério. Lamentavelmente, não existe nenhum exame clínico que comprove a presença do TDAH. Na maioria dos casos o diagnóstico está fundamentado na consulta clínica de um profissional.

A literatura é bastante extensa e confirma que o uso da medicação é muito eficaz na diminuição da intensidade dos sintomas em muitas crianças. No entanto, o uso da Ritalina massivo deve sim ser questionado. Para evitar isso, é necessária uma prática diagnóstica fundamentada nas maiores evidencias possíveis: observação da criança no seu contexto natural, realizar entrevista com os pais e professores, conhecer o que se espera de uma criança em diferentes idades e níveis do desenvolvimento. Além disso, realizar exames físicos para descartar possíveis problemas neurológicos, problemas de ouvidos ou olhos bem como o uso de testes psicológicos que permitam verificar as razões para o pobre desenvolvimento acadêmico.

Outra questão a ser discutida é saber se as crianças de hoje em dia não estão respondendo a uma necessidade de adaptar-se a um mundo dinâmico, de constantes mudanças como o mundo atual, repleto de tecnologia e de uma quantidade de informação brutal e de fácil acesso através da internet através de dispositivos como celulares, computadores, tablets etc. Em outras palavras, para acompanhar a velocidade do mundo atual seria necessário uma conduta mais agitada com um cérebro que busca o seu equilíbrio. Ainda a ciência não nos oferece uma resposta. 

O certo é que o TDAH é uma doença séria, altamente incapacitante e que necessita de um tratamento adequado. Porém apenas para aquelas crianças que realmente apresentam o quadro. Para todas as outras talvez uma boa dose de carinho, atenção, respeito e encontros autênticos seja mais que suficiente.



Principais comportamentos de crianças que apresentam sintomas típicos do TDAH em diferentes idades.



Conduta

Pré-escolares
(3-6)

Escolares
(6-12)

Adolescência

Idade Adulta


Desatenção
Sequencias curtas de brincadeira (<3min).
Deixa as atividades incompletas, não escuta.
Atividades breves (<10min).
Mudanças prematuras de atividades.
Esquecido,
desorganizado,
distraído pelo ambiente.
Persistência menor que os iguais (<30min). Ausência de foco nos detalhes das tarefas, planejamento pobre.
Pouco detalhista, esquece os compromissos, falta de planejamento.

Hiperatividade

Furacão
Inquieto quando se espera tranquilidade.

Inquieto

Senso subjetivo de inquietude

Impulsividade

Sem senso de perigo
Não espera o turno, interrompe os pares, rompem regras sem pensar, acidentes.

Autocontrole pobre, Imprudência com os riscos.

Acidentes de carro, impaciência, toma decisões imprudentes

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